Cheguei





Perguntaram: E você Salinê, onde quer chegar?
Quero terra. Entre os dedos dos pés, calcanhares e tornozelos. Terra na batata da perna e por debaixo das unhas das mãos. Terra na testa, esquecida durante aquele movimento involuntário contra a sensação consquenta da gota de suor. Sementes em potes, em sacos plásticos picotados e envelopes, daqueles que mostram o “big-mac” da espécie na capa. Balde com água e adubo. Faca, pá e boné.

Roupas coloridas no varal, um pé de manga, de abacate, de pitanga, tangerina, amora, banana, melancia, morango, maracujá e acerola. Jambo! A horta explodindo de alface, repolho, couve, cenoura, rabanete, tomate, agrião e beterraba. Lavandas espalhadas entre as margaridinhas do campo, entre a camomila e o alecrim, hortelã.

Dois gatos compartilhando o espaço, passarinhos, borboletas, minhocas, besouros... Rã. Telha laranja, pedras, madeiras e arte, virando uma casa. Acolchoados quentes, frescos e almofadas roubando o espaço do chão. Telas, cavalete, pincéis, fotografias, esculturas e Miguel abençoando. Perfume de lavanda, incenso de sândalo, chinelos fora, pantufas dentro. Elis gritando qualquer coisa ao fundo, até porque qualquer coisa gritada por Elis faz bem. Cheiro do bolo de fubá quase pronto. Cascas de maçã, abacaxi, laranja, uva... secando ao sol, pro chá.
Minhas jabuticabas, Juju e Raul, aprontando qualquer coisa que uma boa criança saiba aprontar. Mãe arrumando a estante dos livros, cantarolando aquelas músicas que só ela conhece. Família na cozinha, nos quartos, nos cantos, sentindo aquela casa, própria. Meu anjo clarinetiando meia dúzia de notas. Amigos espalhados no quintal, entre as sombras da castanheira.
Panelas penduradas, colheres penduradas, panos pendurados, temperos pendurados, prateleiras. Cor. Madeira. Cheiro de camomila. Pães caseiros. Iogurte caseiro. Meu ser caseiro, em paz.
Cheguei.

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