Eu continuo - Sobre quilômetros entre um coração e outro



*Autor, infelizmente, não identificado.

De todos os amores, de todas as peles, e tons, e cores, e corpos, e danças... é o teu samba que ficou aqui. Ficou por que eu quis que ficasse, já que o amor, se a gente não escolhe, a gente permite. E eu abri a porta, com meu riso tolo e com café quente, abri a porta da cozinha pra te receber com bolo de fubá sem erva doce, não por mim, mas por ti.
Abri minhas lágrimas congeladas nos quadros coloridos espalhados pela casa, abri o zíper e o peito. Abri o tarot e lá estava, claro como os olhos de qualquer criança, que "logo ali" tu me amarias profundamente, cartomante pretensiosa. Abri os olhos de manhã bem cedo e te vi ali, risonho, com o tesão e o carinho entrelaçados no meu corpo fino, absorvendo meus suspiros feito gasolina, te abastecendo de tudo isso que entreguei a ti, por escolha e hipnose.
Meus chinelos nas tuas malas, meu casacos na tua casa, minhas mãos nos teus cabelos, meus lábios nos teus olhos, meu planos junto a teus pés e esta foi a hora em que minha aquarela dançante virou óleo e demorou tempo demais pra secar. Demorou demais pra voar e sair batendo as asas naqueles lugares onde os casais vão, entre a novela e o noticiário, aquele lugar, meio realidade meio fantasia, que os casais visitam pra virar criança.
Eu gosto de dançar sozinha sabe? Gosto de fazer careta no espelho e ficar achando desenho em mancha na parede. Eu gosto de ser bonita por dentro e florear minha sombra com lavanda e margaridinha do campo, faço carinho na minha parte feia com o carinho de uma mãe que trata o ferimento no joelho da filha, dizendo que não é esse o caminho, mas que ta tudo bem. Eu gosto de gritar no travesseiro, fechar as sobrancelhas e encontrar alguém me olhando besta, com cara de quem não deu a mínima pro meu espetáculo dramático e que ta me esperando paciente e com chá de maçã. Eu gosto de aprender, a pensar, a sentir, a dançar, a ser... a amar não, por que isso aí eu já nasci sabendo. Eu gosto de jogar pião e saber que tem alguém ali, pra me dar mais barbante quando eu precisar. Pra comprar chocolate quente quando eu estiver desistindo do mundo. Sabe? Ma o que eu gosto mesmo é de você.
Um melhor amigo pra ser amado feito aqueles amores de oitava série. Dizem que eu deveria ser grande, mas eu acho que vou ter sempre pouco mais de 10 anos.
Eu cantei tua cara doce que nem pudim de leite, cantei tua inteligência amorosa e profunda, cantei tua insaciedade, cantei tuas mãos grandes agarrando meu coração barulhento, cantei tu em praça pública e não me arrependo, por que és lindo que nem um passarinho, daqueles coloridos que a gente fica boquiaberto de encontrar. Não me arrependo porque aprendestes a dançar e apoiava teu rosto tímido no meu peito magro enquanto fazia. Não me arrependo por que a gente riu, e brincou, e comeu, e viajou, e tentou, e amou, e amou e amou. Pra mim, não o suficiente, mas só porque eu não aprendi ainda o que significa isso.
Eu tentaria rir da tua graça mais uma vida inteira, mas eu entendi que as vezes a vida inteira dura somente o tempo de uma dança. Então eu ri, uma vida inteira, e aprendi que o riso é riso mesmo chorando. E mesmo chorando eu continuo indo, mesmo pulando em queda livre nessa lacuna entre um momento bom e outro, eu continuo boba, por que é só assim que eu me reconheço no espelho.
E agora? Ah... agora eu vou fazer café quente pra comer com bolo de fubá, com erva doce. Qualquer hora um passarinho chega pra cantar na soleira da varanda e se não chegar eu continuo "empalhaçada", achando pedrinha colorida na estrada pra dizer que é da sorte e fazendo careta pro mundo, por que eu nasci com a necessidade de ser riso, mesmo chorando.

À mando do coração eu continuo...  amando, amando e amando.



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