É

*Imagem retirada da internet, autor não identificado.

É porque eu preciso me livrar desta culpa.

Entre os sons de Milton e os tons de Tom, cresci. Brincando de ser "Paulinha" da Viola alcancei os melhores sorrisos do velho Saunders. Mamazita vive de música, chora até com sino de igreja. Meu companheiro de estrada é músico, daqueles que levam cada nota tão a sério que o lazer é o silêncio. Eu? Ah... eu gosto de Ney Matogrosso cantando Cartola... e... ainda assim... Só me vem Ivete Sangalo no banho. 

Eu não conheço o trabalho da bendita, mal posso julgá-lo, sei que ela é um arraso baiano e tem pernas tão bonitas que parecem de cera, mas o pouco que ouvi de seu trabalho sustenta minha culpa eterna. Não, eu nunca ouvi, no sentido mais próximo de apreciar do que perceber, um disco, não sei uma música inteira de cór, nem segui trio elétrico cantando Poeira, mas é só minha pele entrar em contato com a água morna que lá vem aquela estrofe, única e de sempre, impregnada de shampoo.

Eu sei apenas 4 frases dessa música e cantarolo isso a mais de 8 anos.

Isso é uma daquelas coisas que fogem à compreensão humana sabe? Talvez porque seja uma das poucas músicas em que minha voz fica um pouco melhor, algo entre um gato engasgado e um porco com soluço, pode ser. Talvez seja um deficiência rara congênita crônica transmissível de memorização, pode ser. Talvez seja um risco no disco do cérebro. Deve ser.

Mas o fato é que eu canto Ivete Sangalo no banho. Quase como numa roda terapêutica eu confesso: Eu canto Ivete Sangalo  no banho!!!! Aceito os riscos... talvez perca o namorado, a estribeira e até a mãe! Mas estou cansada, cansada de tentar lembrar as músicas de Caetano que eu sei de cór, cansada de lutar contra a anestesia compulsiva que os azulejos sequenciais me causam, cansada de segurar a voz no banho enquanto utilizo o chuveirinho de microfone, eu abro meu peito pro mundo e digo:


“Posso te falar dos sonhos, das flores, de como a cidade mudou.
Posso te falar do medo, do meu desejo, do meu amor...
Posso falar da tarde que caie aos poucos deixa ver
No céu a Lua, que um dia eu te dei...”

É. Essa é a grande verdade.

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