Existir antes de desejar

*Foto de João Ripper

Antes fosse feito de oportunidade, de escolha ou mesmo de afinidade, mas a preponderância humana é feita daquilo que dá. Alimentada, de comida e oportunidade, com a qualidade proporcional à brecha social em que desabrocha.
Antes fossemos todos engenheiros, dançarinos, médicos, embaixadores da ONU, pilotos, cientistas... Entretanto é feita de carência a vida real dessa espécie, que precisa ajudar a alimentar os irmãos, que precisa pagar o teto ao invés do estudo, que precisa existir antes de desejar.
Esse antes corpulento abriga todas as aptidões, todas as competências, dons, predisposições. Esse antes abriga aquele espaço pré-sono, onde cabeças exaustas ficam flutuando entre os desejos de mega sena e reviravolta... todas aquelas imagens do “como seria se” anestesiam corpos doloridos do batente. 
Quantos doutores existem nos lugares onde as portas não se abrem? Esse País bonito me ensina que o limite faz parte da existência, ao menos nessa fase do tempo e do espaço que conheço, em que a corrida desenfreada por mais (e mais e mais e mais) abafa o mínimo de pessoas que já não tem voz.
Compreendo profundamente aqueles que desistem, seja no fundo de um copo de rum, na superfície rasa das opiniões cuspidas pela mídia ou mesmo no fanatismo por um Deus, que ao menos prometa que essa vida sofrida é somente uma prova de vestibular pra medicina. 

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