Vai que... o mundo é o que você faz.


*Foto retirada da internet, autor não identificado.

Foi Dalai Lama que disse: Minha religião é gentileza.  Eu que já simpatizava com ele, quase que saí dizendo que minha religião era Dalai Lama, mas contive essa criança que pula aqui dentro e só adotei a frase, pois que, se é pra ter religião, que seja esta: Gentileza, segundo o dicionário, amabilidade - habilidade de amar. 

Tira a fantasia romântica desse tal de amor e o torne nu de toda classificação, deixa que ele seja apenas aquilo que faz bem. Ser gentil nasce da intenção de sê-lo. Antes do café, água quente. Tem como ser diferente?

Falando em café, você sabe o nome do moço que serviu o seu, junto com um sorriso tímido? Dizem que o nome da gente é aquilo que mais agrada aos ouvidos, uma porção da nossa individualidade dita por outra boca toca quase como nossa música predileta. Chamar pelo nome alguém que, por ofício ou vontade, nos atende um pedido, faz lembrar da nossa parecença, afinal, todos nós temos um nome. 

Sobre pequenas gentilezas, sempre recordo da vida bandida dos transportes públicos. Segurar a bolsa de alguém no ônibus? Tem quem feche os olhos. Fecham os olhos pras dezenas de agasalhos empoeirados, quando frio. Fecham os olhos pro suspiro do outro, quando equipe. Fecham os olhos pro estar presente, quando online. Fecham os olhos pros próprios excessos, que normalmente significam falta, logo ali, do outro lado da porta.  Fecham os olhos e nem se dão conta que fecham junto, além do fluxo de gentileza, o coração.

Mau humor é permitido, mas deixa que corra sangue gentil nas veias mesmo em dias ruins. É dever daquele que vive respeitar qualquer outra coisa nessa mesma condição. Mesmo num dia que o riso fugiu, segura a bolsa de quem puder carregar vai... vai que os ombros daquela pessoa estejam doendo. Vai que essa gentileza dissolva um pouco da dor. E vai que isso, só isso, seja tudo aquilo que ela está precisando pra seguir adiante.


Vai que... o mundo é o que você faz. 

Buda era foda

*Foto retirada da internet, autor não identificado.


Quem vive indo sabe a hora de ir. 
Essa gente que anda engoliu relógio na infância e quando ele apita, só resta andar. 
Mas quem vai tem que saber também engolir a dor, além do relógio, porque quando a ida adia, dói.

‘Tenqui’ abraçar o instante, todinho, ir ver a terra, rodopiar semente e a-guar-dar. Deixa que cresçam as raízes, deixa que engrosse o caule, deixa que saia uma flor... até que a fruta se faça viva ao deleite do gosto. Suculenta. Quando no momento certo de ser sabor, é.
Mas ‘tenqui’. ‘Tenqui’ ser buda. ‘Tenqui’ aceitar, permitir, libertar, amar, amar e amar... Buda era foda. Como ele sei apenas sentar em lótus, ajeitar a coluna e respirar. Já aguardar... Talvez por isso eu coma flores.
Mas entre a beleza das pétalas e a delícia do gosto, eu fecho os olhos e abro a boca! Então aceito.

- O que?
- Mais uma salada de fruta, por favor.

Desassossego


*Imagem retirada da internet, autor, infelizmente, não identificado.


(Pre) senti o ar... enquanto sufoco.
Senti um respiro de vento entrando na fresta fina da pele, exposta. Quase que senti.  
Achei que era brisa escapando pela fechadura ou buraco de ver estrela no teto, mas era só o desassossego que restou daquele sopro.

Mas era só aquele desassossego mais lindo, que faz a vida girar e olhar da varanda.

Achei que pudesse ser o espirro do sonho que ficou pendurando na ponta da orelha, mas era não, era só o desassossego manso, quebrando a casa.
Quase que senti um beijo fino de um lugar distante, mas no fim, era só o desassossego que, avisando com brisa, tirou minha calmaria pra dançar.
Senti o ar... enquanto suspiro.



Olh, Am, Toc: ar

          *Obra de Silvia Pelissero


Entre olhos negros ou azuis, escolho o 'ar', olhar.

O infinitivo é transparente. 

"Sei não"

                                                  *Foto sem identificação, retirada da internet 


“Sei não” é um estilo de vida sustentável que visa a sanidade mental, emocional e espiritual de alguns seres humanos, ou não, que levam uma.vida.tão.leve.que.voa. Idealizado (desejado, esperado, construído, batalhado) por mim (e por mais ½ da população mundial), mera profissional das letras sem significância pra história da humanidade, que aceita café, por favor.

Em 10 passos simples, explico as diretrizes deste estilo, muito sério, de vida:

1º. Tenha planos, mas que sejam baixos o suficiente pra que você consiga pular por cima, silenciosamente, e  escapar ofegante para um piquenique fora de hora, marcado para às 23;

2º. Tenha disciplina e tendo isso, coma pão caseiro semanalmente, de preferência com manteiga e com meias nos pés, se o pé suar, pode tirar a meia;
3º. Ame, mas só ame, não prometa, não espere, não controle, não enrole, não arrote, não sufoque, só ame, fale a verdade e faça massagem de vez em quando;

4º. Saiba o que quer, fique sabendo, agora pegue isso que sabe e ponha na estante, logo ali, ao lado das outras certezas abandonadas;

5º. Troque toda essa métrica, certeira como flecha de São Sebastião, de ‘Como Vencer na Vida’, por alguns meses de pouca coisa no nome, pouca coisa na mala e muita coisa dentro do espaço onde ficam as boas histórias da vida;

6º. Crie, aprenda todo tipo de coisa, inclusive a costurar, e me faça um vestido florido;

7º. Faça o que precisa ser feito nos dias de chuva, além dos bolinhos, compre um guarda-chuva quente e coloque o hit “foda.se.meus.pés.molhados” tocando em todas as poças d’água da cidade;

8º. Saiba para onde está indo, mas aí vire à esquerda, tome sorvete artesanal, compre 3 cds brasileiros e 1, espanhol, faça amigos que descombinam, conheça churrasco de melancia e então, mude a direção de acordo com o gosto do caminho;

9º. Cante àquilo que a vida tocar. A canção perfeita é sempre a obra mais próxima daquele que tira o desarmônico pra dançar, e ele é tão simpático;

10º. Respire, coma bolo fresco, respire, como bolo fresco... E durma às 20h num domingo qualquer. Menos hoje.

Feito isso, basta se sentir bonita(o) e sair andando.

- Pra onde?

- “Sei não”. 

Dizem os monges que é só sair andando...

Condão

*Autor, infelizmente, não identificado.


Eu fiz um encanto. 
Daqueles que duram mais tempo que um verão inteiro. 
Fiz uma mandinga “da braba”, com tudo o que sobrou no chão da sala depois de nos entregarmos a ele.

Essa magia foi feita pra embebedar teu desejo.

Um feitiço que a primeira vista é rasteiro, leve, beira a suavidade do sono tranquilo, mas nas vistas seguintes ele vai se entranhando nas fibras abertas do teu íntimo, misturando à tua carne uma gana infrene, tornando o meu corpo o motivo maior do teu salivar, de sede, tornando tudo o que constrói 'o meu' aquilo que mais balança tuas pernas em público.
A mágica vai se tornando mais forte com o passar dos dias... Tem dias que meu cheiro visitará teu travesseiro logo cedo e, por isso, o café te fará sorrir sozinha. Outros, minha pele passará em tua lembrança como um refrão antigo, quando tocares outra textura surgida entre as luzes apagadas da boemia, então eu me farei presente.
Por vezes estarei entre os teus parágrafos perdidos nos bancos dos ônibus, num suspiro de alívio depois de descalçar um dia difícil ou mesmo em cada gota de um banho feito na temperatura certa, em cada uma daquelas gotas quem têm a delícia de te experimentar devagar.

Eu fiz um encanto. 
Daqueles que duram mais tempo que um inverno inteiro. 
Fiz uma feitiçaria “da boa”, com tudo aquilo que sobrou do chão da sala dentro dos meus dias seguintes.

Rimas de 8ª

*Autor, infelizmente, não identificado.

Como quem pisa, vôo.
                                Como quem voa, soo.
                                                                Como quem anda, vou.
                                                                                                  Como quem dança, sou.

Eu quero

*Autor, infelizmente, não identificado.


Eu queria que ele soltasse o peito, ele e todos os outros tantos de seres que guardam sua liberdade dentro de uma caixa de valores antigos.
Eu queria que ele, e os outros tantos, lembrassem que essa vida, esse nome, esse corpo, essas pessoas, isso tudo é só agora, dessa vez, e que "essa vez" raras vezes passam de uma breve centena de anos.
Eu queria que ele amasse a si mesmo, naquele ponto em que não hajam motivos pra esconder, seja lá o que for, debaixo de tapetes caros, de roupas caras ou de tudo aquilo que lhe é caro no bolso e barato demais pra qualquer coisa que fique da pele pra dentro.
Eu queria que seus ouvidos abrissem a ponto de escutar a si mesmo e que aquela beleza fujona tivesse a chance de conhecer a alegria de perceber no outro tudo aquilo que tem medo de ver no espelho.
Eu queria que ele... e eu... e você... e nós, tivéssemos a coragem de ser aquilo que somos no escuro.
Eu quero.

D.

*Autor, infelizmente, não identificado.
Divagar devaneios. 
Diálogos doces devem durar dias.... devagar. 
Derreter dores em discursos delicados. 
Desculpe, duvido daquele distinto que diante disso diz: Doida!

Dó!

Distinto, o destino descasca durante décadas e depois de doses de descaso dirás que devaneios devem dividir as despesas do dia a dia: diplomas, dores, desejos, distância, dívidas, dúvidas, dinheiro, descanso, desilusão... detalhes que o devaneio dividido dilui.
Deus dá dias, e dicas, deixa ao deleite daqueles dedicados a descontração do deixar dançar as dores entre as doçuras do diálogo. 

Durante decisões determinantes, distinto, devanear é dádiva!

Cheguei





Perguntaram: E você Salinê, onde quer chegar?
Quero terra. Entre os dedos dos pés, calcanhares e tornozelos. Terra na batata da perna e por debaixo das unhas das mãos. Terra na testa, esquecida durante aquele movimento involuntário contra a sensação consquenta da gota de suor. Sementes em potes, em sacos plásticos picotados e envelopes, daqueles que mostram o “big-mac” da espécie na capa. Balde com água e adubo. Faca, pá e boné.

Roupas coloridas no varal, um pé de manga, de abacate, de pitanga, tangerina, amora, banana, melancia, morango, maracujá e acerola. Jambo! A horta explodindo de alface, repolho, couve, cenoura, rabanete, tomate, agrião e beterraba. Lavandas espalhadas entre as margaridinhas do campo, entre a camomila e o alecrim, hortelã.

Dois gatos compartilhando o espaço, passarinhos, borboletas, minhocas, besouros... Rã. Telha laranja, pedras, madeiras e arte, virando uma casa. Acolchoados quentes, frescos e almofadas roubando o espaço do chão. Telas, cavalete, pincéis, fotografias, esculturas e Miguel abençoando. Perfume de lavanda, incenso de sândalo, chinelos fora, pantufas dentro. Elis gritando qualquer coisa ao fundo, até porque qualquer coisa gritada por Elis faz bem. Cheiro do bolo de fubá quase pronto. Cascas de maçã, abacaxi, laranja, uva... secando ao sol, pro chá.
Minhas jabuticabas, Juju e Raul, aprontando qualquer coisa que uma boa criança saiba aprontar. Mãe arrumando a estante dos livros, cantarolando aquelas músicas que só ela conhece. Família na cozinha, nos quartos, nos cantos, sentindo aquela casa, própria. Meu anjo clarinetiando meia dúzia de notas. Amigos espalhados no quintal, entre as sombras da castanheira.
Panelas penduradas, colheres penduradas, panos pendurados, temperos pendurados, prateleiras. Cor. Madeira. Cheiro de camomila. Pães caseiros. Iogurte caseiro. Meu ser caseiro, em paz.
Cheguei.

Mãe da vida


                                                                        *Autor, infelizmente, não identificado.

Ouvi que a pele dura alguns dias. Li que as células alguns anos. Sei que a vida algumas décadas... E constatei que a morte não é um ponto, ela é a entrelinha. Parte. Epílogo de uma peça que assistimos na primeira fila.  


A morte, mãe da vida, ensina que a certeza do limite é o maior motivo pra ser borboleta enquanto asa, pra ser brincadeira enquanto vivo e pra ser janela aberta enquanto casa. Esvaziado, descobre que nada precisa ser guardado e que o controle é a maior das ilusões humanas, maior das mentiras que aprendemos.


Nada que ocupe de pré’s o que devia estar vazio deve ficar, mesmo porque tudo aquilo que fica, se solta no fim: A pele, os medos, as contas, os títulos... a alma. Nada que pese mais que um sono infantil deve ser carregado. 


Desocupe, viver da graça que a leveza trás é uma escolha inteligente quando se é perecível.

Eu continuo - Sobre quilômetros entre um coração e outro



*Autor, infelizmente, não identificado.

De todos os amores, de todas as peles, e tons, e cores, e corpos, e danças... é o teu samba que ficou aqui. Ficou por que eu quis que ficasse, já que o amor, se a gente não escolhe, a gente permite. E eu abri a porta, com meu riso tolo e com café quente, abri a porta da cozinha pra te receber com bolo de fubá sem erva doce, não por mim, mas por ti.
Abri minhas lágrimas congeladas nos quadros coloridos espalhados pela casa, abri o zíper e o peito. Abri o tarot e lá estava, claro como os olhos de qualquer criança, que "logo ali" tu me amarias profundamente, cartomante pretensiosa. Abri os olhos de manhã bem cedo e te vi ali, risonho, com o tesão e o carinho entrelaçados no meu corpo fino, absorvendo meus suspiros feito gasolina, te abastecendo de tudo isso que entreguei a ti, por escolha e hipnose.
Meus chinelos nas tuas malas, meu casacos na tua casa, minhas mãos nos teus cabelos, meus lábios nos teus olhos, meu planos junto a teus pés e esta foi a hora em que minha aquarela dançante virou óleo e demorou tempo demais pra secar. Demorou demais pra voar e sair batendo as asas naqueles lugares onde os casais vão, entre a novela e o noticiário, aquele lugar, meio realidade meio fantasia, que os casais visitam pra virar criança.
Eu gosto de dançar sozinha sabe? Gosto de fazer careta no espelho e ficar achando desenho em mancha na parede. Eu gosto de ser bonita por dentro e florear minha sombra com lavanda e margaridinha do campo, faço carinho na minha parte feia com o carinho de uma mãe que trata o ferimento no joelho da filha, dizendo que não é esse o caminho, mas que ta tudo bem. Eu gosto de gritar no travesseiro, fechar as sobrancelhas e encontrar alguém me olhando besta, com cara de quem não deu a mínima pro meu espetáculo dramático e que ta me esperando paciente e com chá de maçã. Eu gosto de aprender, a pensar, a sentir, a dançar, a ser... a amar não, por que isso aí eu já nasci sabendo. Eu gosto de jogar pião e saber que tem alguém ali, pra me dar mais barbante quando eu precisar. Pra comprar chocolate quente quando eu estiver desistindo do mundo. Sabe? Ma o que eu gosto mesmo é de você.
Um melhor amigo pra ser amado feito aqueles amores de oitava série. Dizem que eu deveria ser grande, mas eu acho que vou ter sempre pouco mais de 10 anos.
Eu cantei tua cara doce que nem pudim de leite, cantei tua inteligência amorosa e profunda, cantei tua insaciedade, cantei tuas mãos grandes agarrando meu coração barulhento, cantei tu em praça pública e não me arrependo, por que és lindo que nem um passarinho, daqueles coloridos que a gente fica boquiaberto de encontrar. Não me arrependo porque aprendestes a dançar e apoiava teu rosto tímido no meu peito magro enquanto fazia. Não me arrependo por que a gente riu, e brincou, e comeu, e viajou, e tentou, e amou, e amou e amou. Pra mim, não o suficiente, mas só porque eu não aprendi ainda o que significa isso.
Eu tentaria rir da tua graça mais uma vida inteira, mas eu entendi que as vezes a vida inteira dura somente o tempo de uma dança. Então eu ri, uma vida inteira, e aprendi que o riso é riso mesmo chorando. E mesmo chorando eu continuo indo, mesmo pulando em queda livre nessa lacuna entre um momento bom e outro, eu continuo boba, por que é só assim que eu me reconheço no espelho.
E agora? Ah... agora eu vou fazer café quente pra comer com bolo de fubá, com erva doce. Qualquer hora um passarinho chega pra cantar na soleira da varanda e se não chegar eu continuo "empalhaçada", achando pedrinha colorida na estrada pra dizer que é da sorte e fazendo careta pro mundo, por que eu nasci com a necessidade de ser riso, mesmo chorando.

À mando do coração eu continuo...  amando, amando e amando.



É

*Imagem retirada da internet, autor não identificado.

É porque eu preciso me livrar desta culpa.

Entre os sons de Milton e os tons de Tom, cresci. Brincando de ser "Paulinha" da Viola alcancei os melhores sorrisos do velho Saunders. Mamazita vive de música, chora até com sino de igreja. Meu companheiro de estrada é músico, daqueles que levam cada nota tão a sério que o lazer é o silêncio. Eu? Ah... eu gosto de Ney Matogrosso cantando Cartola... e... ainda assim... Só me vem Ivete Sangalo no banho. 

Eu não conheço o trabalho da bendita, mal posso julgá-lo, sei que ela é um arraso baiano e tem pernas tão bonitas que parecem de cera, mas o pouco que ouvi de seu trabalho sustenta minha culpa eterna. Não, eu nunca ouvi, no sentido mais próximo de apreciar do que perceber, um disco, não sei uma música inteira de cór, nem segui trio elétrico cantando Poeira, mas é só minha pele entrar em contato com a água morna que lá vem aquela estrofe, única e de sempre, impregnada de shampoo.

Eu sei apenas 4 frases dessa música e cantarolo isso a mais de 8 anos.

Isso é uma daquelas coisas que fogem à compreensão humana sabe? Talvez porque seja uma das poucas músicas em que minha voz fica um pouco melhor, algo entre um gato engasgado e um porco com soluço, pode ser. Talvez seja um deficiência rara congênita crônica transmissível de memorização, pode ser. Talvez seja um risco no disco do cérebro. Deve ser.

Mas o fato é que eu canto Ivete Sangalo no banho. Quase como numa roda terapêutica eu confesso: Eu canto Ivete Sangalo  no banho!!!! Aceito os riscos... talvez perca o namorado, a estribeira e até a mãe! Mas estou cansada, cansada de tentar lembrar as músicas de Caetano que eu sei de cór, cansada de lutar contra a anestesia compulsiva que os azulejos sequenciais me causam, cansada de segurar a voz no banho enquanto utilizo o chuveirinho de microfone, eu abro meu peito pro mundo e digo:


“Posso te falar dos sonhos, das flores, de como a cidade mudou.
Posso te falar do medo, do meu desejo, do meu amor...
Posso falar da tarde que caie aos poucos deixa ver
No céu a Lua, que um dia eu te dei...”

É. Essa é a grande verdade.

Existir antes de desejar

*Foto de João Ripper

Antes fosse feito de oportunidade, de escolha ou mesmo de afinidade, mas a preponderância humana é feita daquilo que dá. Alimentada, de comida e oportunidade, com a qualidade proporcional à brecha social em que desabrocha.
Antes fossemos todos engenheiros, dançarinos, médicos, embaixadores da ONU, pilotos, cientistas... Entretanto é feita de carência a vida real dessa espécie, que precisa ajudar a alimentar os irmãos, que precisa pagar o teto ao invés do estudo, que precisa existir antes de desejar.
Esse antes corpulento abriga todas as aptidões, todas as competências, dons, predisposições. Esse antes abriga aquele espaço pré-sono, onde cabeças exaustas ficam flutuando entre os desejos de mega sena e reviravolta... todas aquelas imagens do “como seria se” anestesiam corpos doloridos do batente. 
Quantos doutores existem nos lugares onde as portas não se abrem? Esse País bonito me ensina que o limite faz parte da existência, ao menos nessa fase do tempo e do espaço que conheço, em que a corrida desenfreada por mais (e mais e mais e mais) abafa o mínimo de pessoas que já não tem voz.
Compreendo profundamente aqueles que desistem, seja no fundo de um copo de rum, na superfície rasa das opiniões cuspidas pela mídia ou mesmo no fanatismo por um Deus, que ao menos prometa que essa vida sofrida é somente uma prova de vestibular pra medicina. 

Terceira música

*Imagem coletada da internet, autor não identificado

Primeira música: O vestido mal tocava a pele de Beatriz, leve como asas de borboleta, era amparado por um campo de pelos dourados e ralos que juntos criavam uma sensação úmida, um brilho suave era refletido por aquelas coxas. Sarah, comedida, desvendava uma sensação que acabava de sair do casulo, uma sede lascíva fervia nas papilas ressecadas pelo cigarro, um apetite que desconhece os aromas que nascem no corpo de uma mulher surgia inocente e confuso. As texturas mescladas a um cheiro quente, quase doce, feito de perfume e vontade, entorpecia sua razão. Um seio. Quantos seios já não havia visto? Mas Beatriz carregava dois inigualáveis amontoados de carne firme dentro de um sutiã suave, como a pele. Eram pequenos, do tamanho exato para que a cor do mamilo fugisse entre a renda a cada momento, um tom de rosa escuro decorado por sardas e aquele véu de pelos claros, veludo, que se espalhava por todo corpo, coxas, braços, nuca, costas. Beatriz era  inexata e sua assimetria era um convite aos olhos detalhistas de Sarah. Cada canto era feito de pele quente e cor de nata, alva, haviam pintas, tatuagem, cicatrizes, haviam tombos, riscos, manchas, uma tela. Beatriz era uma obra de arte escancarada à sensibilidade de Sarah... Por que era justo aquele corpo que lhe ensinava o descontrole masculino às curvas tão poéticas do feminino? Por que só agora? Relutava. E desejava, tão profundamente como se deseja o gosto predileto, como quem têm ao alcance toda a delícia conhecida.

Segunda música: Bea, desembaraçada e dançante, a cada respiração ousava mais pele, mais riso, mais vinho. Ousava desafiar o ímpeto intocado, virgem, daquela mulher que equilibrava-se entre uma moral instituída e a cobiça pelo desconhecido. Seus dedos atreveram-se e Sarah, sucumbindo ao seu desassossego medroso, corre pra mais um cigarro trêmulo, acomoda a vontade e o medo na bolsa e escolhe a fuga. Mas Beatriz pousa discreta entre esta fuga e a porta, faz de seu corpo o freio, dizendo com lábios fartos e soltos, próximos, que permissão é liberdade.
- Permite... Vem...
Repetia ritmada à voz baixa. Um botão logo substituído por dedos leves. Dois botões, três dedos acarinharam o encaixe do sutiã. Terceiro botão e as costas morenas de Sarah receberam a mão inteira de Beatriz, desabotoando o juízo e deixando o ímpeto nú tomar um beijo como confirmação de toda essa dança muda.
  
Terceira música: Um contraste similar entre as delicadezas de duas mulheres, aquele abraço parecia suspenso, flutuante. O arrepio era sentido com a ponta do nariz gelado, num seio retraído de frio e prazer. Beatriz sabia bem investigar o íntimo de cada mulher, única, e Sarah surpreendia-se com os seus desejos sendo sanados um a um, como quem tem a mente e o corpo escancarados por mãos precisas. O gemido como comunicação, a boca como fonte, as mãos como olhos... e a explosão. Agora Sarah era toda, entregue à Beatriz ela era toda janela, aberta, exposta, florida. Era toda aquele momento morno que guardou o inverno na taça de vinho suja com dois tons de batom. Um amor se fez, entre dois seres cheios de sede, e fome, e vontade, e vergonha, e interesse, e surpresa e total. Se fez amor naquele quarto que cheirava lavanda e tangerina.

Se fez riso amoroso em dois pares de olhos, maquiados, que o sono selou como o fim.




Super Autêntica, nossa heroína moderna

*Imagem (e modelo): Larissa Bezerra


Numa interjeição de alívio, a moda enfim aprovou os caracóis encantadores que brotam mau educados de tantas cabeças femininas. Enfim a padronização lisa e loira rolou barranco abaixo e virou só mais uma alternativa e não um cenário obrigatório nas ruas e revistas do País. Nunca fui lisa e loira e nem dona de uma bem cuidada cachopinha estilosa. Meus cabelos castanhos ondulados, tão meio termo, são eternamente apertados, amassados e comprimidos na tentativa fiel de achar um mísero cachinho perdido, mesmo aqueles, sabe aqueles? Perto da nuca? E se acho (aaah se eu acho) ando com ele exibidamente, me sentindo uma quase crespa orgulhosa. Mas não pode bater vento, por que se uma brisa um pouco mais decidida entrelaça nas minhas ondas frágeis, quase que de imediato viro uma lisa, ficar na frente do ventilador pra mim da “efeito chapinha”. Enfim, essa minha relação com os cachos servem como um simples prefácio para ilustrar um conto que uma amiga me contou pra eu aumentar um ponto e virar prosa boa pra vocês.
Os caracóis de Larissa sofreram assédio moral, impertinência e perseguição. Foram alvos de uma mente lisa sem dó, uma mente bêbada de formol insultou seus ziguezagueantes fios negros. Estava ela, com sua energia que mora entre a tranquilidade e a euforia, imersa de forma tenaz às questões que lhe semeiam fascínio: fotografia, viagens, teatro, dança... Em paz, com sua camiseta canadense e sua bermuda cearense. E deste silêncio pacato eis que surge uma janela facebookiana, mãe de toda injúria capilar derivada daquele momento, era um amigo bem intencionado que recorreu à Larissa assim que soube que uma conhecida, proprietária de uma empresa de cosméticos, estava buscando irrequieta por moças fartamente encaracoladas pra estrear um novo produto. Ao ser indagada sobre a possibilidade de se tornar a mais nova Taís Araújo, respondeu saltitante: Mas é claro que sim!!! Já habitada pela idealização de ver seus cachos adorados exibidos nos comerciais do horário nobre. Elegeu suas melhores fotos, onde seus redemoinhos estavam soltos e brilhosos como fogos de artifício, e as enviou para a cidadã responsável que apressadamente retornou, afirmando equivocada:
- Sim, você é exatamente o perfil que estávamos procurando!
Esse plural fez cócegas na imaginação borbulhante de Larissa; Estávamos? Pensou logo  que deveria ser uma equipe daquelas que James Cameron ficaria contente em dirigir. Já deliciava-se com as prováveis regalias quando a fulana continuou a frase:
- A ideia é encontrarmos uma modelo como você, para participar de um antes e depois da utilização do nosso super lançamento, um cosmético capilar que promove um alisamento espetacular e definitivo. Quando podemos gravar?
Nessa hora seu queixo precisava ser amarrado novamente à cabeça, caiu desconsolado no colo com o impacto dilacerante de imaginar seus caracoizinhos, tão amorosamente cuidados, afogados, esticados e imobilizados por um composto de siglas químicas que poderiam facilmente estar presente na fórmula do sapólio. Estatelada e com o queixo abandonado no colo, Larissa, ainda buscando retomar o fôlego e a crença na humanidade, responde ao convite indecente:
- Obrigada querida, mas meus cabelos cacheados não são um problema a ser solucionado.
Se encheu de orgulho, perfume e flor no cabelo e foi encaixar os dedos redondinhos  nos caracóis apaixonantes do namorado.
Esse episódio, tão natural a nós que vivemos desviando de verdades prontas e padrões empacotados, demonstra que a contusão sofrida pela auto-estima humana no desenrolar da construção da cultura ocidental, reverbera ainda nos espelhos do século XXI. Como um trauma de infância ainda sentimos na pele (pés, cabelos, seios, barrigas e bundas) toda imposição silenciosa em sustentar características físicas, que na grossa maioria das vezes, são profundamente incompatíveis com nosso molde, desmaquiadas e nuas.  Mesmo achando peitos de silicone e barriga retinha uma belezura,  ainda não conheci beleza maior que aquela feita unicamente no útero. 
Essa beleza vendida em frascos e clínicas plásticas ainda não se nivela com o descabelar matutino daqueles que carregam um pedaço do nosso coração no bolso. Há uma incomensurável diferença entre lapidar e modificar, escolher entre embelezar-se aceitando aquilo que é autêntico e adulterar-se aprisionando um peito inseguro num corpo de revista.



Flor de cerejeira


Sentada num ponto de ônibus gelado, uma voz trêmula de frio me direciona uma questão convencionalmente banalizada:
- Tudo bem?
Logo percebi que a questão ampla havia sido colocada por uma senhora dona de uma pele cheia de desenhos rabiscados pelos anos idos. Em reposta à simpatia involuntária que sua imagem gerou, nada além um de “muito bem” poderia sair de mim e assim o fez. Mas a mulher, que comportava um trisneto de sabedoria, me espiou com suas inabaláveis auréolas acinzentas e filosoficamente me instigou:
 - E de onde vem o seu bem?
Inflamada automaticamente pela relevância da colocação, acessei à todas aquelas alegrias marcantes que mais colorem a memória, sempre tão confundida pelas histórias e fotografias. Ponderei banhos de mangueira cinematográficos e o primeiro banho de banheira que durou 3 horas, o desfrute da conclusão de um quebra cabeça de 300 peças e a conquista da Floresta da Ilusão no Super Mário World, o passeio marginal na canoa roubada do vizinho ou a viagem de cruzeiro de 14 dias... Mas quando aquela menina apareceu na minha minuta, soube de rompante qual a minha síntese da definição de “bem”.
Aquela menina, de olhos que mais parecem duas generosas jabuticabas prestes a se romperem de tão maduras, nasceu com alguma coisa entre os ossos e a pele que tem um condão capaz de molificar tudo o que existe dentro do que chamo de "eu". Presumo que seja ela a maior algoz de meu comedimento já que, por ela, toda palhaçada e careta vira obrigação. Não existem, na sua audaciosa presença, motivos dignos de um breque de minha parte, toda pompa perde o propósito, já que a cada passo do ponteiro dos segundos, perto de sua estatura modesta, transformam-se instantaneamente em tudo o que existe no mundo. É quase como chocolate derretido em leite quente sabe?
Aquela criança ri de um jeito que é quase inimitável.... Um jeito meio rouco e asmático de exibir aquela dentadura farta como uma plantação de milho entre abril e maio. Ela ri até acabar a voz e quando não há mais nem um mínimo sonido, sua pele alva começa a purpurear repentinamente. Assustador para os inexperientes, mas para mim, aquele sufoco sorridente é um dos maiores bens que já degustei nessa vida cheia de sabores.
Ela, pequetitinha e bela como uma flor de cerejeira, controla facilmente meu equipamento cardíaco e sem nenhum esforço patenteou boa parte de meu bem, naquele espaço enorme que seus quase 6 anos preenchem com fabulosa competência. Por remate, então, respondi:
- O meu bem, o maior deles, vem de uma miudeza que sorri sempre que grita: Tiaaaa!!!!!



Quem não deve, não vive

* Imagem coletada da internet, autor não identificado

- Descobri!

Apavorado, pensou logo em sua mania de organizar a louça antes de lavá-la ou de passar as meias a ferro e guardá-las em sacos plásticos, mas percebeu que seus tiques pouco teriam haver com tamanha surpresa. Nem os hábitos de mordiscar a haste direita dos óculos, ler resumos ao invés da obra completa de grandes clássicos literários ou cutucar o umbigo em público, compulsivamente. Não foram seus gestos obscenos da janela do ônibus, nem o platonismo em relação às jovens senhoras casadas, nem a preguiça diária de tomar banho... Foi a palavra. Aquela palavra que sustenta um cosmos de possibilidades. Cabia tanta coisa ali, naqueles fonemas combinados, que foram evocados de uma só vez todos os cenários de sua vida que contivessem um mínimo de indecência, mesmo que ingênua.
Folhas e folhas de itens numerados desde a tenra idade baixaram como download naquele instante: beliscão no irmão mais novo quando bebê só pra vê-lo chorar; roubo costumeiro de balas na padaria; desejar a melhor amiga da namorada; dizer uma mentira pros amigos, e ter que sustentá-la, só pra se tornar mais interessante... Todas as melecas escondidas debaixo da mesa. Aquele pequeno verbo de ação vulnerabilizou sua construção de identidade. A perícia esmiudada daquela palavra resfriou tão rapidamente seu corpo que a única coisa quente, além das bochechas, era a cachola vertiginosa. Os possíveis desfeixos de cada um de seus delitos lhe custaram, em poucos segundos, centenas de milhares de neurônios seduzidos pela nobre causa em defesa de sua vida pública. A evidenciação nua de alguma parte de sua intimidade, tão preservada em pouco mais de quatro paredes, lhe custou apenas, a princípio, as bochechas pintadas de vermelho.
Retorna de súbito, com um só tapa nas costas o sangue volta a sua maratona e o coração quase troca de lugar com as amígdalas na busca de um bafo desfrigorificante... Então enfrenta mais uma vez a voz da culpa:
- Descobri!
- ... O que? Diz espremendo ferozmente os músculos sedentários, numa reação instintiva ao prenúncio.
- Que é você o dono do LP do Milton que tá rolando aí na agência... Cara, tô procurando esse disco ha uma data!
Esmorecendo o corpo todo de uma só vez, ele senta na mesa, toca no ombro do colega com um sorriso anêmico e desafoga:
- É seu. Meu amigo... é todo, toooodo seu.

Trechos mentais III

* Imagem coletada da internet, autor não identificado



Que cor que tem o quê daquilo?
Tem cor de quilo e qualquer coisa que caiba no quase.
Como?
Quero tudo aquilo que não sei o quê.


Miguel

*Imagem coletada da internet, autor não identificado.

Ele tinha cabelos crespos. O Miguel, tinha cabelos crespos como de um anjo barroco. O nariz não era de anjo, nem as orelhas. Mas o cabelo, ah... esse era. Vivia com aquele riso pela metade, meio sem querer mostrar todos os dentes, nunca soube porquê, mas também, nem interessava já que só a metade de riso já adormecia minhas pernas, melhor mesmo que não fosse um riso inteiro. Das voltas, curvas e negras destes teus cachos macios vem meu encanto... rabiscava na agenda nova de dois anos antes, apaixonada, num ensaio silencioso daquilo que não cabia como voz.
O dia em que decidi tomar uma atitude mais assertiva, digamos, chegar e falar:

- Oi... (o que pra mim já era uma ação que me deixava tão despida como um streep-tease)

Gaguejei. Parece mentira. E é. A verdade mesmo é que não cheguei nem a gaguejar, por que minha garganta se contraiu de tal forma que a única coisa que consegui soltar foi um grunhido, horroroso.
Cheguei na frente dele, olhei com meus belos olhos verdes e dei um grunhido. Pode? Mais parecia um ronco agudo e mortal. Me matou. Durante dias fiquei morta... Minha vida ficou presa naquele instante onde o ronco ainda estava no peito, depois que ele saiu boca a fora levou consigo minha vida. E eu fiquei por aí, morta, com uma cor constante que variava entre o azul e o bordô. Andava pelo centro empresarial de cabeça baixa, pra que aqueles cachos pretos não sugassem novamente o pouco que restou de vida em mim.
Um grunhido! Eu dei um grunhido pro Miguel, anjo quase barroco e desengonçado. Anjo mal que trabalha como fiscal do restaurante que trabalho. Anjo detestado pelo meu chefe, o Chico, que é mais amigo que chefe, por que segundo ele eu faço as coisas direitinho... Enfim, aqueles cachos absorviam como uma esponja nova toda minha força e pelo jeito minha vida também. O melhor mesmo é recuperar minha cor menos envergonhada e esquecer dessa história de matador de mulheres. Assassino de mim.
Caminhando ainda um pouco zumbi, em direção ao café, enxergo um pé 46, por que desde o ronco agudo minha cabeça não conseguia se equilibrar direito e ficava caída, fixada por uma pele fina da nuca que segurava também minha dignidade. Aqueles pés 46 eram o final de um par de pernas compridas, escondidas debaixo de uma calça impecavelmente passada. Acima, logo depois do cinto, havia uma camisa rosada e um blazer muito bem cortado, um gogó pontudo, um queixo aristocrático e... os cachos! Miguel era, então, o dono daqueles pés 46.
Muda, surda, tetraplégica... Mas nada cega. Consegui ver o meio sorriso vindo em minha direção, consegui ver que os olhos dele tinham uma cortina de cílios que mais pareciam abanadores de Cleópatra, vi que ele tinha uma pinta peluda atrás da orelha, vi que ele estava de mãos dadas com um homem. É. Um homem. Daqueles homens que poderiam servir de modelo nu pra Da Vinci. É. Um homem. E lindo.

- Juliana! Você está melhor da garganta?
- Oi?... Ah, sim. Tomei uma vacina hoje (de vergonha na cara).
- Que bom. Deixa eu lhe apresentar, esse é o Bianco, meu marido.

Oi? Marido? E a aliança? E aqueles sorrisos incompletos? E nossas semelhanças sobrenaturais? E minha cama com você de enfeite? E nossos futuros filhos?

- Ah.. Oi Bianco. Prazer.
- Juliana! Uma honra te conhecer, Miguel sempre descreve a gerente linda e inteligente que trabalha no restaurante do Chico.

Ai eu já poderia ser internada de uma vez. Ele me achava tudo isso aí que eu nem sabia se era e é casado? Com Bianco?

- Ah... Legal. Prazer Bianco.

A essa altura eu já calculava se a corda que tenho na garagem me sustentaria amarrada no portal de ferro do meu jardim. Porque só um enforcamento rápido recuperaria minha cor antiga, agora que soube que os cachos eram diariamente amaciados por aquelas mãos loiras e lindas. Morri, agora morri todo o resto que faltava.
Saí andando desamparada e encostei dormente na parede do café. Devo ter ficado ali uma vida inteira. Só retornei quando o rapaz que recolhe o lixo pediu licença... Entrei no café. Pedi a torta mais gorda que existia naquela vitrine pecaminosa. Pedi o cappuccino mais gordo que existia na face da terra e tentei cobrir meu coração de açúcar.

Posso pegar o adoçante? 

Disse um homem negro, que vestia uma bata branca daquelas que fazem meu coração dançar ula ula.

- Uhum. 

Tentei dizer com a boca ocupada por chocolate, farinha e morango.

- Você está sozinha? 

Pensei: Que pergunta é essa rapaz? Minha vontade era chorar de boca aberta, com chocolate e tudo, meu triste desfecho com o barroquismo de Miguel.

- Uhum.

- Posso? 

Disse o filho de Ébano pegando no encosto da cadeira. Naquela altura eu já estava deixando até pombo fazer ninho na minha cabeça.

- Uhum. 
- Você fala moça? 
- As vezes.
- Pronto! Começamos um diálogo! 

E riu um riso inteiro de dentes que mais pareciam pastilhas de menta.
Eu ri, com minha cor azulada, minha torta de chocolate e minha morte em vida. Mas alguma coisa naqueles dentes tantos fizeram minhas mãos voltarem a cor normal.

- Desculpa, dia ruim. Qual seu nome?
- Rafael.

Ah não Juliana, mais um El?

- Então Rafael, me diga uma coisa, você é gay?

Ele recebe a pergunta como um soco na boca do estômago e me joga no colo mais um riso de pastilha de menta. Meu Deus! Que riso enorme!

- Então... e você é mulher? Disse ele, ironicamente levantando o par de sobrancelhas largas.
- Olha, até hoje eu acredito que sim.

Respondi espiando por debaixo da saia.

- Então, ainda não sou gay.

O café ficou mais quente. A torta mais cremosa. O corpo mais magro. A cor mais rosada. E o olho, ah.. esse ficou mais verde que azeitona fresca.

Se foi


* Imagem coletada da internet, autor não identificado
Se foi... 
E indo, esqueceu-se de levar consigo a parte dele que habita em mim.
Esquecimento que apodrece um elo eterno. 
E lembra que a eternidade é feita de segundos finitos.
A morte é linda pra quem tem os olhos abertos... 
Resta-me apenas abri-los.

O caminho

*Foto de Carolina Câmara

Mesmo que pareça qualquer coisa torta... 
Desde que faça vibrar tua doçura que seja; antes aquilo que te toma o sim. 
A contramão é também um caminho. 
E pode ser aquele que te leva pra casa.

(...)

O mais bonito deles.

Primeiro dia de aula

* Imagem coletada da internet, autor não identificado. 

Tropecei e sujei o uniforme novo de barro fresco no primeiro dia de aula. Primeiro dia de aula! Toda arrumadinha com as borboletas coloridas novas no cabelo. Toda boba que estava entrando pro primeiro ano do ensino FUN-DA-MEN-TAL. Eu, naquela altura, não sabia bem o que significava fundamental, só sabia que os adultos a usavam com um tom de voz um pouco mais afiado que nas demais palavras, como - Comer brócolis é FUNDAMENTAL! Portanto, eu já sabia que era séria essa história de primeiro ano. 
Me dediquei uma semana antes, matutei acerca de todos os possíveis emperiquitamentos de cada canto do meu corpo vaidoso. Após tudo visto e decidido, desenhei, já que não saberia escrever todos os itens, desenhei cuidadosamente cada item numa folha perfeitamente branca de A4: seis borboletas de cabelo, uniforme novo, tênis preto, meia branca, calcinha da moranguinho, brinco de joaninha, mochila da turma da mônica, anel de estrela... Tudo perfeito e muito melhor do que na alfabetização, é claro.
Lá estava eu, andando sozinha pela rua mal asfaltada, quando de repente o maior de meus pesadelos apareceu à direita e eu, como num filme aterrorizante,  fechei os olhos, apavorada com aquele violentíssimo poodle barulhento de lacinho rosa. A dona, também dona de um voz que poderia sem dúvidas ser usada numa dublagem de bruxa má, repetindo o mesmo 'papinho mixuruca' de que: Ah! Ela não morde! Retira, enfim, a ameaça à vida humana de perto de mim. Alguns minutos depois, após aquietar o coração palpitante com pensamentos menos impetuosos, me virei o mais rápido que pude e sai correndo bestamente pro lado esquerdo, com minhas pernas já bastante longas pra minha idade e... a poça. A bendita poça de barro fresco que sujou minha roupa toda.
- Nãoooo!!!! (Acompanhado de um bico daqueles que derrete um coração adulto feito manteiga na chapa.)
Depois de analisar e constatar a calamidade nada artística desse acidente, acocorei com o rosto entre os joelhos e chorei umas lágrimas de desabafo de tanta coisa acontecendo junta. Achei, entre meus pés, nesse momento onde toda minha expectativa de um dia perfeito havia sido levada cruelmente por aquele poodle, pequenas florzinhas amarelas brotando da rachadura antiga da calçada. Eram umas oito florzinhas com um miolinho branco descabelado. Fiquei ali, propositadamente me perdendo naquelas micropétalas, quando a Professora Maria Rita, do ano anterior, se sentou do meu lado.
- Posso ajudar Lú?
- Pode não tia, já estraguei tudo aqui ó – disse inconsolada mostrando a camiseta suja.
- Pois então ajeite menina! Disse sorrindo. Me deu um beijo estalado na testa e foi em direção a escola. 
“Então ajeite” Repeti mau humorada. Joguei o peso pra trás e caí sentada, numa tentativa emburrada de achar um bom motivo pra falar pro meu pai que não tive outra escolha se não voltar pra casa e esquecer de meu futuro como professora, já que a partir daquele dia, o desânimo, e o poodle, haviam podado toda uma vida dedicada aos estudos. Peguei uma das flores emprestadas da calçada e comecei a olhar. Olhar... olhar... Rolava como um pirulito aquele caule frágil entre os dedos igualmente delicados. Quando o caule estava quase se decompondo, coloquei num buraquinho da trama larga e grossa da camiseta. Gostei. Coloquei outra. E outra... As oito. Levantei, olhei pro canto do muro atrás de mim, haviam dezenas delas!!!
Cheguei atrasada na aula, com batom rosa, borboletas no cabelo, mochila da mônica e uma obra de arte no uniforme. As freiras que não gostaram muito, com exceção de Maria Rita, que me olhou doce e me deu uma de suas covinhas como aprovação. Minhas novas colegas me olharam risonhas, como se achassem tudo aquilo muito estranho e bonito. Ao menos foi o que escolhi acreditar. Sentei atrás, já que não me restavam opções, e tive a graça de ser espiada, durante toda a tarde, por olhos curiosos, sorridentes e admirados.

Professora Maria Rita disse que isso se chama reinventar.
Naquele dia eu aprendi que o prefixo RE é aquilo que pode tornar as coisas ainda mais bonitas.